Gente
que sente
a tristeza
da gente
antes mesmo
que a gente
lamente.
Nenhum segundo a mais no despertador. Nenhum livro novo. Nenhum doce na geladeira. Nenhum sorriso cruzando a rua. Nenhum e-mail. Nenhuma gentileza. Nenhuma mensagem de aniversário. Nenhuma mensagem atrasada de aniversário. Nenhuma piada. Nenhum xingamento. Nenhum elogio. Nenhum barulho de grilo. Nenhum grito de medo. Nenhum acampamento na sala. Nenhuma mensagem no celular. Nenhuma ligação esperada. Nenhuma ligação inesperada. Nenhum aperto de mão sobrando. Nenhum nome faltando. Nenhum pedido atendido. Nenhuma pizza paga. Nenhum drink oferecido. Nenhum sorvete derretido. Nenhuma bochecha corada. Nenhum centavo ganho. Nenhum amor inteiro. Nenhum amor parcelado. Nenhum queixo sujo de brigadeiro. Nenhuma coberta quente. Nenhum sofá com marcas de uso. Nenhum badalar de sinos. Nenhuma nuvem em forma de cavalo no céu. Nenhuma ligação. Nenhum pedido de namoro. Nenhuma escova de dentes fora do pote. Nenhum lápis apontado. Nenhuma sombra. Nenhuma presença. Dias. Noites. Vida. Piloto automático.
Ninguém tira meia fotografia, ninguém viaja até a metade do caminho, não fica bem sair no meio de uma peça de teatro, ninguém telefona por meia pizza. Um trabalho não finalizado não é um trabalho.
Eu gosto dele, gosto da voz dele, do jeito dele, da risada dele, do perfume dele, do abraço dele. Eu gosto dele mesmo negando. Eu gosto dele mesmo quando meu coração já não quer mais gostar de ninguém. Eu evito, mas eu gosto tanto dele e a parte mais estranha é que é reciproco. Gostar de alguém é perigoso. Mas é errado isso, eu digo, gostar de alguém que gosta de mim também?
Eu costumo guardar as coisas para mim, porque na realidade, ninguém realmente se importa.
Amor: 4 Letras, 2 Vogais, 2 Consoantes e 2 Idiotas
E de repente fica frio. Em todos os sentidos.